Psicastenia

A TV estava coberta com um lençol de solteiro estampado. O cão estava mudo e estático, coagulado como os demais móveis cobertos. A chuva sempre incauta, indiferente à fragilidade das moradas. Se rejeitarmos as andanças do ponteiro e as gotas se deformando no telhado, perceberíamos que todo aquele silêncio que pairava no ar trazia consigo uma dose de respeito. Talvez desconfiança.
- Lúcia. Tô indo levar a janta de seu pai no trabalho dele. Não demoro.
A porta bateu e a menina continuava olhando para a parafina da vela que liquefazia antes de beijar a porcelana fria do pires. Estava com sede. Na escuridão, a cozinha parecia enorme e tão longe. Sua sombra na parede também: enorme. Disforme. Ela evitava qualquer movimento, mínimo que fosse, para que a sombra obedecesse, imitando-a. Não tinha jeito, a chama da vela estava viva e agitada demais, tentado se desvencilhar do pavio. Para isso, sua chama tentaria ficar imóvel o máximo que podia para queimar-se mais depressa e se libertar, como nós, espiritualmente. Lúcia percebeu que uma corrente de ar pirraçava a chama de momento em momento. Ela viu uma boca tão carnuda e vermelha tão cintilante que parecia mais sangue do que batom.
- Você está com sede. Por que não vai até a cozinha?
Aquela voz tinha um tom provocativo. Pronunciava as palavras pausadamente, mexendo os lábios de um modo exagerado.
Lúcia era muda. Nunca se sentiu tão desprotegida. Encolheu-se o máximo que pôde no sofá. Seu joelho apertava o peito intensamente.
- Vou buscar água pra você, menininha. Quem sabe você acalma e pára de se tremer.
A chama agitou tanto que quase apagou. Nesse momento, a menina viu dois olhos amarelos tão grandes, que pareciam saltar das pálpebras escuras. A chama se acalmou. Lúcia queria correr até a porta da frente, mas não sentia suas pernas. Aflita, ela ouviu os passos se aproximando lentamente. A menina desmaiou ao sentir a voz tão próxima de seu ouvido.
- Lúcia, voltei.

1 glosas.:

corujinha disse...

Parece um pesadelo. Tenho alguns assim: sinto-me desprotegida e as pernas não obedecem. Nem a penumbra.