Título

essa rede de fibra
a balançar
sua única deriva
meu pé direito
suspenso numa gravidade lunar
a cabeça tem um pensamento
cor de seda verde-limão
torcendo o pensamento bagaço
nessa madruga
silêncio de pedra
todo o mistério do mundo na palma
da mão na rede de fibra
a linha da vida
a curva da rede
a balançar faminto
o corpo pelo espaço
falando em braile
só lido em tato.

Tese de deslocamento

para aporte teórico
telha observadora 
de sombra de árvore
que roça na bica
conta segredo de água
na fruta que não escuta
suculência resguardada.

Çabeça



a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela podemos guardar frigoríferos e geleias
cem quilômetros de paisagem e preconceito
sendo possível espirrar cuspir engolir sorrir
e sustentar cerca de 150.000 fios de cabelo
ela acomoda um cérebro de um quilo e meio
queima dúvida e certeza por nada de cinzas
abre-se nela uma boca e salta pelos olhos
um punhado de riqueza num dente de ouro
uma pobreza um desprezo num duro murro
entende o que é lentilha e o que é gordura
administra vinte e dois ossos extremamente
em harmonia com as orelhas que só ouvem
compactua com a língua e o apuro obsceno
capaz de cortar desaforo e computar gozo
a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela o café é fervido a carne é amaciada
nela aniquilada a bondade e a simetria
nela um barco de água é muito dinheiro
e da cabeça ao peito se abre um buraco
+
A cabeça é a parte mais pesada do corpo > Flavio Caamaña
Cabimento > Arnaldo Antunes

Luxo

que tempos
de tem que
me erram.