Fulano IV
hoje eu não ia falar das cidades
nem das relvas cinzas
nem das pedras verdes
quiçá dos atabaques ambulantes em frente à praça central
mas sempre há um mendigo insone
que repara na madrugada que arrasta
pelo sinal fechado da BR
vítima do excesso de não ter um nome.
um poema
uma lista de coisas vagas
que não cabem num poema
que não suporta uma rima
ainda que esteja acima da última estrofe
um pouco à esquerda da página
descendo rente à margem fixa
de um monitor tecnológico
poema é um conjunto de linhas psicológicas.
uns avisos
exatamente às seis
depois da matinê
estarei a pé e passarei pra te ver.
mas visite Matilde
leve Cartola, dois livros de bolso
e um pacote de alpiste.
vá de branco
os brincos, aqueles mesmos
as chaves estão com o porteiro.
levante às doze
apague as luzes de fora,
dois beijos inteiros e depois vá embora.
fique feliz
porque hoje descobri
que o agora é uma
demora que virou fim.
cena erótica
tal como banhar-se pelo avesso
tuas pernas abertas são meu começo
quando olho a chuva nos novelos
tão rijos e atentos pós apocalipse de desejos
eu escolho as paroxítonas pelo contexto
do gesto, do gozo e do enredo.
tuas pernas abertas são meu começo
quando olho a chuva nos novelos
tão rijos e atentos pós apocalipse de desejos
eu escolho as paroxítonas pelo contexto
do gesto, do gozo e do enredo.
aos pós
hoje mais cedo recebi uma carta vinda do Sri Lanka,
de uma freira desesperada por uma pulseira de miçangas
dizia que a vida estava boa mas tinha pressa
de se ver no espelho tão nua quanto morta
dizia também que era viúva em segredo
de um operário da fábrica de cimento
que morreu de infarto com impurezas no peito
um dia me visitaria, em meados de janeiro ou fevereiro
assim que não aguentasse mais comer pão velho de mosteiro.
aquela branquela
aquela branquela
de meias pelo avesso
feridas no joelho
e caspas no cabelo
era minha irmã
antes de morrer tão cedo
por uma dor no peito.
de meias pelo avesso
feridas no joelho
e caspas no cabelo
era minha irmã
antes de morrer tão cedo
por uma dor no peito.
Os que alcançaram o Paraíso estão fazendo greve por um pouco de paz. De tanto ócio, estão provocando guerra contra si próprios. Se rejugando, refletindo, readvogando e rezando... tudo por uma justiça menos bruta e uma esperança de encontrar a liberdade nas condições escritas em letras miúdas no rodapé do contrato celestial.
Porque se ele analisasse os pratos milenares através do tempo, saberia
comer lombo suíno grelhado ao molho de mel e aceto balsâmico ou outras
regalias substituíveis. Mas felicidade mesmo é comer aquele sonho
dormido da padaria da esquina com coca-cola goela abaixo sem nenhum
remorso de aparência.
Um menino azul
há um menino azul embaixo da terra.
vestido de roupa de despedida.
de
despedir do mundo.
pela cor, não dá pra saber se é rico
ou pobre.
se a alma
não já tivesse ido, saberíamos se era nobre.
mas antes disso,
para onde queria
ir?
antes de chegar ali.
há um menino azul embaixo da terra.
com o tempo irá explodir
e sumir.
Lavinesu
quando eu amo pelos cantos
quando canto teu encanto
tudo é lindo quando muito
quando juntos começamos
caso por acaso
nossos feitos serem fatos
a noite nos esperará
pelo que seremos
para o que façamos.
quando canto teu encanto
tudo é lindo quando muito
quando juntos começamos
caso por acaso
nossos feitos serem fatos
a noite nos esperará
pelo que seremos
para o que façamos.
William Gomes e Brenda Luara, 22/11/2011
Suor
portanto, foi-se tão tristonha
o peito ribombando lágrimas antigas
e sua camiseta encharcava cada fibra
uma coisa inesquecivelmente estranha.
Remeta
esteja pronta e me inclua
ao ponto de sua carne crua
matar a fome de estar nua
no ápice do meu firme
ainda que afirme
que seu medo
seja o meu
e meio.
ao ponto de sua carne crua
matar a fome de estar nua
no ápice do meu firme
ainda que afirme
que seu medo
seja o meu
e meio.
Mudo
meu poema se refez num transtorno
feito o silêncio grave de um soluço
vomitando o ar do absoluto
meu poema não se forma nem evolui
só deforma a escrita que não flui
minha carência agora é de ser tudo.
feito o silêncio grave de um soluço
vomitando o ar do absoluto
meu poema não se forma nem evolui
só deforma a escrita que não flui
minha carência agora é de ser tudo.
Um parágrafo hermético
Enquanto ela abria a porta, o chaveiro batia no vidro avisando sua chegada.
Todos os espíritos que viviam ali se escondiam atrás do sofá da sala. Exceto a menininha distraída que estava ajoelhada vendo sua foto no porta-retrato em cima da mesinha de centro. Ela tentava se lembrar daquele dia, seu aniversário. Encontrar qualquer ligação que pudesse se conectar àquele momento. Mas é que fazia tanto tempo, que ela nem conseguiu reconhecer ninguém. Um vazio batia no seu peito como um soluço mudo, ou uma fumaça. Nunca tinha encontrado nenhum registro vivo que ainda a pudesse manter viva. Nem cartas, documentos, certidões, contas, desenhos, uma nódoa num vestido. Nada. E sabia que não se pode confiar nas lembranças das pessoas. Agora ela resolve fazer sua própria história.
A menina da fotografia acaba de entrar na sala. Um pouco diferente por causa do tempo.
Bicho
inventei um novo bicho
com materiais do lixo
consumido pelos ricos
era quase um indivíduo
mas seu caráter destrutivo
fez do meu tempo desperdício.
com materiais do lixo
consumido pelos ricos
era quase um indivíduo
mas seu caráter destrutivo
fez do meu tempo desperdício.
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