- Deus é um terço da missa.

Verde

sinceramente,
tenho devoto amor
pela mordida do gato
na folha do jovem abacateiro
e na implosiva pimenteira
assim reparo
nesses prefixos da casa
voltados para cima
em existência ocupada
em crescimento invisível.
- Não falo que tô bebendo pra não rotular.

Título

essa rede de fibra
a balançar
sua única deriva
meu pé direito
suspenso numa gravidade lunar
a cabeça tem um pensamento
cor de seda verde-limão
torcendo o pensamento bagaço
nessa madruga
silêncio de pedra
todo o mistério do mundo na palma
da mão na rede de fibra
a linha da vida
a curva da rede
a balançar faminto
o corpo pelo espaço
falando em braile
só lido em tato.

Tese de deslocamento

para aporte teórico
telha observadora 
de sombra de árvore
que roça na bica
conta segredo de água
na fruta que não escuta
suculência resguardada.

Çabeça



a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela podemos guardar frigoríferos e geleias
cem quilômetros de paisagem e preconceito
sendo possível espirrar cuspir engolir sorrir
e sustentar cerca de 150.000 fios de cabelo
ela acomoda um cérebro de um quilo e meio
queima dúvida e certeza por nada de cinzas
abre-se nela uma boca e salta pelos olhos
um punhado de riqueza num dente de ouro
uma pobreza um desprezo num duro murro
entende o que é lentilha e o que é gordura
administra vinte e dois ossos extremamente
em harmonia com as orelhas que só ouvem
compactua com a língua e o apuro obsceno
capaz de cortar desaforo e computar gozo
a cabeça é a parte mais pesada do corpo
nela o café é fervido a carne é amaciada
nela aniquilada a bondade e a simetria
nela um barco de água é muito dinheiro
e da cabeça ao peito se abre um buraco
+
A cabeça é a parte mais pesada do corpo > Flavio Caamaña
Cabimento > Arnaldo Antunes

Luxo

que tempos
de tem que
me erram.

Quarta

a savana da sala
em deslumbramento tardio
repara o fim de tarde
que se põe no longe
atrás do edifício luxuoso
lado-a-lado tenta a padaria.

Diagonais

um gato em negrito lê
da janela da sala itálica
a sombra do acabateiro
fazendo métrica na calçada

a cidade na constância
o hemisfério do pijama
quando você acorda antes
do alarme dizer

nossa ressaca de fim de agosto:
como demorou!
ainda que quebrar copos
e comprar perucas
nos mantém em comum estilo.

de A a Belhas

a nossa rede
no balanço das rédeas
o wi-fi sobre nossas cabeças
e sobre as nossas cabaças
o ruído da dissincronia
vira atraso o ato que não virou
experiência ainda
suspensa no tempo
a espreita de noz moscada
sacode no vento galhos e galhos
de nós mascados
indo-se os dedos
ficam-se os mascarados
aonde o/a braço
ao cança.

des off ir

ir o devir da pedra - gruta
parada em estrada verde
a sala de espera em agosto
florescem urgências pétalas
meu bem me quer fazer aprender
a regar as plantas
a lembrar de beber água em noites de porre roxo
o vinho são jorge nas intermitências do dragão
fluindo a pedra mole
a greta garbosa
trocando de pele
em plena
a avenida
a espera
um táxi
um amanhã ser.

aorta

a estante de livros
tá gelada no inverno
o ferro e a falta
encontram o silêncio
entre teias de aranha e ficções
os romances amarelam com o tempo
de manuseio
não lidos
os assuntos
na ponta dos dedos
não folheiam
nem se molham de saliva
temporariamente jogados fora
não se lixam.

jor now

procura-se se queer
na capa da nata
uma vy(a)da
que posa na caça
ex-tampando no tempo
a mancha em playback
a manchete estampida
entre fuckhnicolor
o feed semanão
foi caso jor now.

fando

fomos conversando
voltamos sem ter visto
o que era aquilo
que estávamos gritando
sem ter ouvido
algum atraso
tem tom de avanço.