Matinal

Enquanto ele tomava o café com pão, a mãe estava junto a pia lavando a louça. Mesmo mastigando, ainda dava pra ouvir o roçar do Bombril no fundo da panela de pressão. E saí uma pergunta:
- O papai ainda dorme?
- Um hum...
Naquele instante começava a chover e os pingos pareciam sementes de uva caindo pesadamente nas telhas de cerâmica. As aranhas lá no alto estavam assustadas.
- Corre menino! Vá pegar as roupas que estão no varal, depressa!
E ele foi como sempre vai, sem nenhuma palavra. Por sorte, o café dormido não estava muito quente. Em meio minuto ele já vinha carregando sobre os ombros as roupas e um lençol. Mal via, porém sentia o cheiro carinhoso do amaciante. No quarto, jogou tudo em cima da cama. E naquele instante a chuva já havia engrossado, o café esfriado e a fome morta. Do quarto dava pra ouvir o barulho da panela batendo na pia de inox. Desse jeito papai levantará mais cedo do que de costume.
O menino sabia que não tinha graça alguma acordar cedo. A casa tornava triste, sonolenta e mal iluminada por causa da madrugada. Todavia, somente àquela hora podia ver a mãe lavando a louça mal-humorada e com pressa pra ir à feira. Não, ela não vai comprar. Ela vai vender. Com chuva ou sol, o trabalho feirante era sagrado. Não podia faltar nenhum dia que as verduras e as frutas poderiam apodrecer se não vendê-las. Sem contar também com o fiado que tinha pra receber.
Coitada. Àquela hora e já tinha tantos planos em mente. Bom seria a realização de pelo menos metade deles. Lembrou que tinha que passar no armarinho e comprar um zíper bege. Mas isso seria na volta.
Pronto! Lavou a louça, mas não enxugou. Deixou secar no escorredor.
Olhou pro relógio ao lado da porta.
- Vixe! Já faltam vinte pra seis.
Ajeitou tudo como de costume, só que mais rápido. Fez o sinal da cruz, abriu a porta e apressou o passo.
Lá vai ela descendo ladeira abaixo. Bolsa de lado e colar de miçangas no pescoço. Dobrou a esquina.
Só volta no anoitecer. Deve comer lá mesmo.
Assim, a rotina continua.

William Gomes, 14/03/08

3 glosas.:

Camila disse...

A minha rotina é chata, mas a rotina alheia pode ser [simples]mente interessante. Conto gostoso de ler.

Bárbara disse...

poxa Wu, vc tá escrevendo daquele jeitinho bom, onde vamos construindo as imagens e imaginando os próximos gestos...adorei!
Bjooos
;*

Meia Lua disse...

Num gosto muito de rotina não...
Mas admiro quem consegue levar a sua com força e determinação!!!
Não nasci pra coisas iguais...

Abraço!!!