Natureza-morta

Antes de o despertador dar um sinal de vida, os olhos já estavam abertos. Aproveitou os poucos minutos que restavam e virou para a esquerda. Como esses minutos eram preciosos. Era como se sua vida só desfolhasse após o sinal do despertador. Enquanto isso poderia se sentir morto. Enquanto isso poderia se sentir inexistente. Nem sonhava, nem vivia. Apenas estava. O mundo naquela hora não era dono dele, apesar dele fazer parte.
Aquele ensejo seria uma dádiva para poucos. E por ser tão exclusivo, era perfeito. Até o momento em que a malícia ainda não chegava com o sol ele lembrava que molhava a ponta do indicador com a língua para pegar os minúsculos cristais de açúcar derramados sobre a mesa matinal. Era doce como o instante em que nossos pais esperam o sono sobre sua larga cama para falar dos filhos, do crescimento desses e do orgulho oculto por esses mesmos. E para nos amar muito mais.
Dada a hora, levantou-se. Seguiu direto pra cozinha e sentou. Com seu cotovelo sobre a mesa apoiando o queixo percebeu que estava bordado o substantivo Segunda-feira no pano-de-prato. Mas não era Segunda. Como as outras tantas coisas que fazem com que sua casa o sufoque, aquele pano estava intato por muitos dias. Pelo menos pela ação do único habitante daquele lar.
Mais tarde, após ter feito as atividades costumeiras pegou a bolsa e seguiu pedalando pro trabalho. Aquela farda amarela e azul chama menos atenção do que ele achava. Pois a caminho da empresa só recebia o cumprimento de Dona Eva, viúva e à espera do leiteiro.
Dia de terça-feira. Dia de entregar correspondências porque assim acumula as de sexta, sábado e segunda. Pegou o pacote e foi pedalando cidade adentro distribuindo amores, brindes, cobranças, elogios, ofensas e palavras. Nem todo mundo o vê com importância, só ele mesmo. E tem orgulho disso. As pessoas só percebem a importância daquilo que o carteiro as entrega e não quem as entrega.
Ao chegar em casa, destranca a porta e quando o chaveiro bate no vidro o gato mia lá dentro aguardando seu almoço. O felino guia seu dono à cozinha e pára ao lado de sua tigela aguardando sua ração. No armário há um lugar só pra isso. Ele despeja um pouco da ração e guarda o resto. Só dá pra mais um dia. Vai pro sofá da sala e liga a TV. No mesmo instante em que aperta o botão ON a campainha toca. Já imagina quem seja. Ao abrir a porta:
-Oi. Aqui tá sua marmita. – disse o homem que entrega seu almoço.
-Ah, sim. Obrigado.
Passa pela sala e ignora a TV. Deixa-a ligada pra dar mais vida a casa. Põe a marmita na mesa e come.
Com a camisa de botões vinho aberta exibindo o peito, ele repousa na cama o sono da tarde e a casa vai se escondendo conforme a escuridão cresce.




William Gomes, 12/07/2008

4 glosas.:

Camila disse...

Céus...
Que descrição perfeita!
Invejável posição do carteiro. A partr de agora, vou ver os carteiros com os mesmos olhos seus.

dani.ella disse...

Vou olhar o moço da farda amarela e azul com outros olhos a partir de agora, muito mais perceptiveis e atentos, dando mais importancia ao seu trabalho de 'ntregador de noticias' =)


Ps. você esteve em meu blog antigo (mininaruiva) uma vez, mas eu abondei ele, e só vi sua visita agora, por isso não a retribui. Deixei ele de lado e me mudi para esse. Mudança de casa pedi por novos visitantes, por isso seja sempre bem-vindo
=)

Juliana disse...

Nossa, que coisa mais linda
deu-me um orgulho de vc...

Vontade de dizer que eu te amo
(pronto, disse)
*.*

rsrs
Ah, eu volto pro orkut em alguns meses...
E eu adorei você óculos!
:*

"rEk" disse...

Po veih

Mt show o blog

Parabens!

qndo der passa no meOo

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